Nas ladeiras do Serro, o folclore ganha vida.

Por | Expressão Cultural | Sem comentarios

A manifestação folclórica serrana completará 290 anos de tradição no dia primeiro de julho de 2018.

Rúbia Meireles[1]

Formada pelos grupos de Caboclos – representam os indígenas, Catopés – representam os negros – e Marujos – representam os brancos. A festa retrata ricas tradições, conservando elementos das três principais raças que contribuíram para a formação do povo brasileiro e também serrano. Essa manifestação de fé à padroeira dos negros acontece na primeira semana do mês de julho, desde 1.728 na antiga Vila do Príncipe, hoje cidade do Serro – MG.  E em 2016, tornou-se patrimônio cultural imaterial do município.

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Festa de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos – Serro. Foto: Rúbia Meireles, julho de 2005.

Relato de um domingo de glória.

O dia ainda não clareou. O galo ensaia preguiçoso o primeiro canto, e a Igreja do Rosário já está lotada. Centenas de pessoas ouvem atentas as primeiras palavras do padre que faz a última reza antes da Matina – ritual que inicia a festa -. São cinco horas da manhã, uma brisa gelada toca os rostos dos fiéis e festeiros, que no adro da igreja, escutam por três vezes o toque da Caixa de Assobios dos dançantes – ritual que pede a Virgem permissão para começar a celebração -.

Ari Gonçalves Almeida, chefe dos Catopês. Festa de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos – Serro. Foto: Rúbia Meireles, julho de 2005.

Autorização concedida, eles saem às ruas carregando a imagem da Santa e avisando a todos que a Festa de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos está começando. Ao som de tambores, flautas e vozes a Matina leva turistas, moradores e fiéis em procissão pelas ruas relembrando o sofrimento dos escravos.   

Os participantes seguem alegria, bênção e esperança trazidas pelos dançantes da Caixa de Assobio. O destino da procissão é a casa de compadres e comadres que fazem parte da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário. São dois juízes, duas juízas, o rei e a rainha que recebem essa visita abençoada e, em gratidão, oferecem uma mesa farta de quitutes.  

A primeira parada é na casa do primeiro juiz da irmandade, Sr. Elio Ramos. “É com muita satisfação que hoje eu ofereço a minha casa para ter a bênção de Nossa Senhora do Rosário”, alegra-se o juiz, Elio Ramos. 

A cada casa, uma alegria. A cada ladeira um destino.  O próximo é a casa da rainha, Dona Alice Esteves, que com terço na mão, recebe a visita muito emocionada. “Não posso chorar, mas é difícil conter as lagrimas, essa festa revive o lamento dos escravos na senzala”, comenta a rainha.  

Quase meio dia, sol quente e a procissão continua. A última parada é na residência do fazendeiro José Divino, onde os festeiros prestam à homenagem final da manhã. Na entrada, uma demonstração de carinho e solidariedade. Numa fila enorme, pessoas aguardam distribuição de alimentos – doação que o fazendeiro faz anualmente em pagamento a uma promessa feita a Santa -.  Dentro da casa, a família emocionada recebe os festeiros e juntos, ao redor da mesa, agradecem às graças alcançadas.  

O primeiro dia de festa chega ao fim. A imagem da Santa retorna ao altar da Igreja do Rosário onde fiéis de todo o país aguardam ansiosos a chegada do cortejo.  A moradora Conceição Nunes de oitenta anos relata que acompanha a festa todos os anos. “Eu vinha desde pequena com minha mãe, hoje venho com meus filhos e netos. ”

 “Essa festa é uma tradição do Serro, é uma manifestação de fé, a mais bonita de Minas Gerais”, comenta a fiel. 

Após a celebração da última missa, acontece o hasteamento do mastro, a imagem de Nossa Senhora é exibida a mais de cinco metros de altura, enquanto em meio a aplausos, fogos de artifício iluminam o Serro. Encerra-se assim o primeiro dia de celebrações. 

Ficou curioso, quer conhece essa festa tradicional? 

A festa de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, acontece a partir do dia 1° de julho de 2018.  Na praça do Rosário, Rosário – Serro – MG.

[1] Jornalista, MBA em gestão estratégica de Marketing, consultora socioambiental

 

sementes fazem amor

Por | Expressão Cultural | 2 Comments

(edmar alves, em março de 1997)

pela paz

pela natureza

 

s e r  n a s c e n t e 

 

I. o homem

 

deito-me

ao chão

e deixo que essa garoa

acaricie meu rosto,

que essa brisa,

conselhos e recados

sempre em meus ouvidos

 

segredos confidenciados só a mim

 

e

 

assim

descubro

uma nova linguagem

 

basta olhar

a sua volta

 

as palavras

fazem-se desnecessárias

 

sem referências

somos apenas

apenas soltas e amareladas páginas

de um livro não lido

em extinta língua escrito

 

sem nomes

somos apenas

aquele de quem ninguém fala

aquele ao qual ninguém chama

 

e

assim

não nos falaremos

não nos chamaremos

 

sem raízes

somos apenas

secos troncos

ocos e podres

 

não tão raros

– de uma quase primavera –

não tão necessários

– que o fogo, a tarefa de consumir, não aceite – 

 

II. os conselhos

 

sem os conselhos

que nos sopra o vento

em seus diversos tempos

não saberemos

quando chegar

ou

mesmo

se é preciso ir

– fazer ir longe nosso tão próximo eu – 

 

III. a semente

 

sementes

fazem amor

 

sementes,

nossos habitáculos

que se abrem

– o palco se descortina –

 

– que plantemos uma semente

se de sementes viemos –

  

IV. mensagens

 

respiro

o verbo (a ação)

que se faz existir

por palavras que migram

 

migram…

 

…de ouvido a ouvido a ouvido a ouvido a ouvido a ouvido a ouvido a ouvido a ouvido a ouvido a ouvido a ouvido…

 

cor-

-das

vocais

emitem

emitem mensagens

que ecoam, que ecoam, escoam

 

ecoam

e s c o a mmmmmmmmmmmm…………

 

sons

v i a j ammmmm

 

sons que ouvimos ou não (ou não!)

sons, v i d a s – v i v a s – v i d a s

sons que ecoam, escoam…

  

V. pedido

 

peço que eu possa

reconhecer-me

em sons que ouço

 

(ou preciso de um espelho)

 

eu peço

– rogo a mim –

 

pe-

-ço (a mim)

 

que eu seja

i  n  s  t  r  u  m  e  n  t  o

 

de informação

i  n  s  t  r  u  m  e  n  t  o

 

de interação

de manifestação

 

uma linha de pipa

um abraço

uma ponte

uma fonte

 

a transformar

arcaicas formas

de parasitismo, de exploração, de dor, de ódio

em conexões verdadeiras

do viver, do prazer

  

VI. a terra

 

Sin-

-to,

com os pés no chão,

a energia

 

a energia

que da terra emana

 

terra

que tudo

faz viver

que tudo ama

(mesmo os que não a amam)

 

que faz crescer

que tudo consome

(sou adubo! consuma-me!) 

 

VII. comunhão

 

Co-

-mungue

(e não resmungue… não rascunhe…)

com a terra

 

sinta

o pulsar

de um coração que bate

 

energias invadirão

seu corpo,

sua mente

 

– sinta, sinta só!!! –

  

VIII. o abraço

 

a-

-brace

(…bracio …brace …bracismuito)

a árvore

que o protege do sol

 

faça

faça…

 

faça

faça amor com ela

(faça amor com ela,

faça amor por ela,

faça amor nela,

faça, faça…)

 

fluidos corporais, vitais

darão, juntos,

vida

a um novo ser

pelo amanhecer

 

erga

erga suas mãos

ao sol

à lua

à chuva

 

saúde-os

saúde o novo ser

 

e assim

estará saudando

a si mesmo

 

– folhas regem

o cantar dos pássaros,

e todos aplaudem,

ouça! –

  

IX. o novo

 

ouça!

um riacho nos fala

 

sussurros nos chamam,

águas correm…

 

r e s p i r e

respire fundo

 

encha o peito

 

e abra a porta do esconderijo

de sua cela

de seu mundo

de deu medo

de seu…                ?

 

olhe

para fora

 

e sinta algo novo

acontecer

r e s p i r e

bem… bem fundo

 

encha o peito

 

e erga seus braços

seja pássaro

veja mar

vá!

 

decole

voe! voe!!!………………… voe………..

  

X. prazeres

 

um olhar

espera revide

 

há revide?

há revide!

 

sentimento

e sensualidade

 

orgasmo

é possível ver. ver? ver!

 

diante

de tamanho prazer

 

perdemo-nos em mares

nos céus

em nomes

pela vida

e em toda a imensidão do infinito imenso

  

XI. recepção

 

os

seres

os seres…

 

os seres das matas

do ar,

dos rios,

dos mares e terra

recebem-nos

de braços abertos

 

basta

atender

ao seu chamado

 

– diga sim, sim!!! –

 

 XII.

 

não há como

explicar

 

não há

porquê

 

não há o que

entender

 

basta sentir, basta!

 

somos

infinitas partes

de um todo

 

somos 

gotículas

dessa tempestade que cai

 

somos

um entre milhares

de seres que viajam

de uma boca a outra

no

beijo de ontem

 

somos

um semear

de uma criança

que, sem pressa, espera

o nascer do jardim

de uma única flor

que surge

no pós-chuva

 

somos

somos este jardim

que está por se formar

  

XIII. superação

 

precisamos

dar passos além

 

atravessar o riacho, molhar-se

 

olhar atrás

de arbustos, de troncos, de tocas

 

buscar

l o n g e v i d a d e 

no efêmero

 

– em tudo que parece

não durar, não querer ficar –

 

um sorriso

seria o suficiente

 

so-

-nhos

(outros, deles, delas)

os nossos,

mais íntimos

`espera de momentos…

 

eu vivo

existimos

  

XIV.

 

Dei-

-xemos

que fluam energias

 

energias

por todos os nossos poros

nossas veias

tubos, canais, vias

hoje! hoje! hoje!

 

e

em outros dias mais,

além-depois-agora

 

eu vivo

e existimos como relfexo

 

da vida

do mundo

na dança

na música

no sexo

no silêncio

  

XV. águas

 

ouça!

um riacho nos fala

ao pé do ouvido

 

águas correm

águas limpas

 

águas vivas como luz

que invadem

corpos e mentes

 

– nossos corpos parecem levitar –

 

des-

-encontros

são esquecidos

nãos, não lembrado

somos o esquecimento então

 

 XVI. _____

 

vemos

nuvens, árvores e animais

e os amamos

 

as-

-sistimos

ao rio que tudo leva

 

ele chama

e nos convida a uma viagem

 

folhas e galhos

em viagem

são bons companheiros

 

apenas

assistimos a vida

 

apenas

assistimos a vida

e a vivemos…

  

XVII. _____

 

agora sei

que não há

separação entre

o riacho e nós…

 

entre

nós e a vida…

 

entre

eu e você…

 

já sabemos

agora

que não há

separação entre

quem cria e a sua criação…

 

entre

quem mata e a sua vítima…

 

entre

quem ama e quem é amado…

 

 XVIII. _____

 

se-

-mentes

 

sementes

fazem amor

 

desertos

vêem nascer jardins

 

corações

dão vida a paixões

 

 XIX. _____

 

sementes fazem amor

fazem amor

 

pé descalços

pisam à terra

 

ouvidos

pedem sussurros

(que ensaiam paixões)

 

 XX._____

 

ah! silêncio

siiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii

no silêncio

no silêncio da noite calada,

ouvidos

pedem sussurros,

mas fazem silêncio  

…    s e r   p o e n t e   … 

sementes fazem amor

Desarrollo Sostenible y Patrimonio Inmaterial: Una Interconexión Necesaria

Por | Artigos | 3 Comments

Lucas dos Santos Roque[1]

Angela Christina Ferreira Lara[2]

La UNESCO, en el ámbito de la Convención 2003, para la Salvaguardia del Patrimonio Cultural Inmaterial[3],[4] (PCI), trabaja desde la perspectiva de que el PCI es impulsor y garante del desarrollo sostenible, en la medida que contribuye para la seguridad alimentaria, auxilia a mantenerse en buena salud, aporta a un modelo de educación de valores y competencias para la vida, da soporte a igualdad de género, apoya los medios de subsistencia, respeta la sostenibilidad ambiental, influencia en la solución de los litigios y puede reforzar la cohesión social. Recientemente, en junio de 2016, se añadió un capítulo específico en el texto de las directrices operativas de la Convención[5] acerca del tema, en sintonía con el esfuerzo global reflejado por la Agenda 2030 para el Desarrollo Sostenible, de las Naciones Unidas. Leia Mais

Participación y planes de salvaguardia: reflexiones, desafios y perspectivas

Por | Artigos | 6 Comments

Lucas dos Santos Roque

Introducción

La Convención de 2003 ha desempeñado un importante rol en el sentido de conceder cierta unicidad al concepto de Patrimonio Cultural Inmaterial (PCI) en todo el mundo. De hecho, aunque sea posible a los Estados Parte de la Convención realizar adaptaciones en sus definiciones, ellas siempre están relacionadas al eje de la definición establecida en la Convención[1]. Más allá de eso, la Convención fue responsable, también, de garantizar que la salvaguardia de estas manifestaciones deben siempre tener un carácter participativo. A partir de este punto si instituyó la práctica participativa como la metodología de trabajo en  este campo, también en acuerdo con la misma Convención de 2003. Leia Mais

PATRIMONIO JOVEN

Por | Artigos | Sem comentarios

Lucas dos Santos Roque

Publicado originalmente en la revista Cultura y Desarrollo, nº12, 2014

Los niños y adolescentes están sujetos a muchas influencias que pueden comprometer el proceso de aprendizaje de las manifestaciones tradicionales de su comunidad. Estas influencias provienen del discurrir cotidiano y en muchas ocasiones no son percibidos como riesgos. En realidad no todos los riesgos a que están sujetas estas manifestaciones suponen un problema o un mal para la comunidad. Muy al contrario, hay muchos casos en que aspectos positivos de la cotidianidad impactan de manera negativa en el PCI. Leia Mais